Pular para o conteúdo principal

Será que o amor é cego mesmo? Darwin, Freud e a neurociência explica.

Dr. Ricardo Teixeira*

Atração sexual

Com o objetivo de perpetuação da espécie, é bem compreensível que nosso cérebro tenha se desenvolvido para ser recompensado com tempestades neuroquímicas de prazer ao experimentarmos atração sexual por outra pessoa.

Hoje em dia já conhecemos muito dos atributos que aumentam as chances das pessoas se atraírem sexualmente, e que vão além de fatores culturais. Os atributos estéticos da pessoa são bastante determinantes, mas outros fatores como cheiro, tom de voz, status social e financeiro, senso de humor, inteligência, todos esses já foram demonstrados como fatores que influenciam a atração sexual, alguns desses mais relevantes para as mulheres enquanto outros para os homens. Já sabemos que por trás dessas preferências há uma mãozinha do nosso código genético.

Quanto maior a diferença entre os DNAs de duas pessoas, maior a chance de atração sexual. Do ponto de vista evolutivo isso faz sentido, pois a reprodução sexuada tem por princípio básico a mistura de genes, diminuindo assim o risco de doenças geneticamente determinadas. Isso ajuda a explicar porque evitamos gerar filhos dentro da própria família. Evitamos o incesto não só por questões culturais ou religiosas, mas nosso cérebro tem atração sexual por pessoas que estão longe do núcleo familiar, pois essas têm maior chance de possuírem um repertório genético distinto do nosso.

Num famoso estudo, também chamado de experimento da camiseta suada, mulheres cheiravam várias camisetas masculinas suadas e tinham que eleger a que tinha cheiro mais sensual. Elas elegeram o cheiro de homens com DNAs mais diferentes dos delas. Uma evidência de que esse é um comportamento que herdamos de nossos ancestrais é o fato de que, ao contrário do que muitos pensam, o incesto é muito raro em grande parte das espécies animais. Freud e Darwin não tinham esse conhecimento em mãos, já que os primeiros estudos sobre a evitação do incesto em animais apareceram apenas entre 1960 e 1970, incluindo primatas, baleias e até roedores.

Neuroquímica da atração sexual e do amor romântico

Imaginem se Darwin e Freud tivessem o conhecimento que temos hoje sobre nossas respostas cerebrais à atração sexual e à presença da pessoa amada. As regiões cerebrais ativadas em resposta a sentimentos românticos ou à atração sexual são muito parecidas, e envolvem o mesmo sistema de recompensa cerebral disparado ao nos deliciarmos com um alimento saboroso, independente de ser homem, mulher, homossexual ou heterossexual. Os principais combustíveis dessas reações são a dopamina, ocitocina e vasopressina, sendo que esses dois últimos não participam das reações observadas no amor materno, e esse é um dos pilares que explicam a diferença entre o amor romântico e o materno.

Além das regiões do cérebro que se “acendem” com as experiências do amor romântico ou atração sexual, sabemos também que outras áreas se “apagam”, e essas são regiões vinculadas à função do medo (amígdala) e regiões associadas à nossa crítica, juízo de valores, nosso “superego” (ex: lobo frontal). Isso explica em parte por que o amor é cego, e a paixão nem se fala.

Vantagem da monogamia

E a monogamia? Há espécies animais, especialmente mamíferos e aves, que preferem continuar com seu parceiro original, mesmo com a oferta de novos parceiros. Esse comportamento é acompanhado de mútua defesa de território e de providência de alimento, e até mesmo de ansiedade à separação. Isso é regado por muita química cerebral e, mais uma vez, com a participação da dopamina, o neurotransmissor mais associado ao fenômeno de recompensa e ao vício em drogas.

Essa ligação mais duradoura com o parceiro é vista como uma vantagem evolutiva, já que permite que o casal cumpra as tarefas da maternidade e paternidade por tempo suficiente para que a cria tenha mais chance de sucesso de alcançar a idade reprodutiva. Devemos pensar que entre os humanos a monogamia é algo absolutamente cultural e religiosa? Não somos mamíferos tão diferentes assim. Sabemos que entre nós a dopamina transborda com a atração sexual e a experiência romântica, mas também com o processo de ligação mais estável com o parceiro. E vocês acham que Caetano Veloso exagerou no MEU BEM, MEU MAL? “Você é meu caminho, meu vinho, meu vício…”

* Dr. Ricardo Teixeira é médico neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Clique aqui para ver página original

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CHÁ​ DE JARAMATAIA: REMÉDIO POPULAR QUE CURA CÂNCER. SERÁ?

por  Alice Branco Jaramataia é uma planta que nasce na caatinga, no nordeste brasileiro. E, de uns tempos para cá,  tem sido muito divulgada como sendo medicinal e que curaria até câncer. Ainda não há dados conclusivos mas,  algumas universidades estão estudando , de fato, os potenciais medicinais desta plantinha de nome simpático. Jaramataia - que planta é essa? A jaramataia é uma planta arbustiva , do clima seco da caatinga, que dá uns frutinhos pequenos, pretos quando maduros, a  Vitex gardneriana  da família Verbenaceae. Sempre é bom comprovar a origem da planta pois, há outras Vitex por aí, pela natureza, parecidas mas, das quais se desconhecem os usos. Se encontra nas margens de rios, nos quintais das pessoas, na beira das estradas.  Hoje é considerada uma planta medicinal pela população nordestina  e é procurada no país todo.  Mas, ser...

A maioria dos suplementos vitamínicos é inútil, mas há algumas que vale a pena tomar?

A maioria dos suplementos vitamínicos é inútil, mas há algumas que vale a pena tomar Uma pesquisa que analisou 100 outros estudos anteriores aponta que não há evidências de que pessoas que tomam as vitaminas mais populares têm menores riscos de doenças cardíacas, derrame ou morte prematura por qualquer causa. Então pode deixar a caixinha de vitamina C de lado e veja quais complementos realmente fazem diferença para a saúde: Multivitamínicos: deixe de lado "> O estudo que revisou 100 outras pesquisas prova que tomar multivitamínicos não ajuda muito a saúde. Este trabalho foi publicado na revista  Journal of the American College of Cardiology , e não encontrou ligação entre o hábito de tomar suplementos de vitaminas múltiplas e a redução do número de doenças vasculares ou morte precoce. Alguns dos estudos analisados até sugerem que consumir vitaminas em excesso causa danos às saúde. Um grande estudo de 2011 que acompanhou 39 mil mulheres de meia idade observou que mulhe...

Doenças do Aparelho Digestivo

Helicobacter pylori (H. pylori) O que é Helicobacter pylori (H. pylori)? A infecção pelo H. pylori ocorre quando um tipo de bactéria (H. pylori) infecta  o seu estômago geralmente durante a infância. É uma causa comum de gastrite e úlcera péptica e está presente em metade da população mundial. É mais frequente em países em desenvolvimento como o Brasil, no qual 70% da sua população na idade adulta está infectada. Geralmente não apresenta sintomas até a idade adulta embora a maioria das pessoas nunca venha a sentir qualquer tipo de sintoma. Quais são os sintomas da infecção pelo H. pylori? A maioria das pessoas infectadas nunca terão qualquer tipo de sintomas. Não se sabe porque isso acontece. Os pesquisadores acreditam que algumas pessoas podem ter nascido com maior resistência aos efeitos nocivos do H. pylori. Quando ocorre, os sintomas pe...