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Ficar sentado mais de 3 horas por dia é associado a 433 mil mortes por ano

Correio Brasiliense 4 de junho de 2017 10:45

No início, os ancestrais humanos viviam de galho em galho. Depois, desceram da árvore e ganharam o mundo sobre duas pernas. Em pouco mais de um século, porém, o Homo sapiens assumiu uma nova postura, que, dessa vez, nada tem a ver com o processo evolutivo. É numa cadeira que o homem moderno passa a maior parte do dia. Na internet, existe até piada sugerindo que o nome da espécie seja alterado para Homo sedentarius. Esse comportamento, embora pareça inevitável, é perigoso. Segundo um estudo brasileiro publicado na revista American Journal of Preventive Medicine, permanecer sentado mais de três horas por dia está diretamente associado a 3,8% dos óbitos por todas as causas no mundo. O mais grave é que a estatística inclui mesmo quem se exercita com regularidade.

O trabalho dos pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP) usou dados da literatura científica produzida em 54 países para calcular a média de horas diárias em que as pessoas passam sentadas e o quanto isso contribui para aumentar a mortalidade. De acordo com o líder do estudo e autor correspondente do artigo, Leandro Rezende, desde 2010, pesquisas indicam a relação entre esse hábito e o número aumentado de óbitos, mas, além de apresentar cálculos para uma quantidade expressiva de países, o grupo da USP quis verificar se a prática de exercício físico poderia reduzir os riscos associados.

A meta-análise mostra que, ajustando todos os fatores que influenciam na mortalidade, ficar sentado por mais de três horas é um hábito associado ao risco aumentado de óbito em todos os lugares analisados, que, juntos, representam 25% da população adulta mundial. Em média, os habitantes desses países passam 4,7 horas/dia nessa posição, variando de 4,2 horas (países americanos) a 6,2 horas (países do Pacífico Ocidental). No geral, ficar mais de três horas por dia sentado foi responsável por 433 mil mortes, ou 3,8% de todos os óbitos registrados nas 54 nações analisadas, com percentuais variando de 2% no sudeste asiático para 5,7% no Pacífico Ocidental. Rezende esclarece que não havia literatura científica sobre o Brasil contendo esses dados, mas que a realidade do país se insere no que foi observado em relação às Américas em geral.

Ao mesmo tempo, remover alguns minutos do tempo em que se passa sentado foi capaz de reduzir a mortalidade. “Mesmo reduções modestas, como 10% do tempo médio, ou 30 minutos por dia, teriam impacto na mortalidade por todas as causas nos 54 países avaliados. Mudanças mais robustas, como 50% de redução, ou duas horas, representariam ao menos três vezes menos mortes, comparando com o primeiro cenário”, diz o pesquisador da USP.

Mudanças contextuais

Porém, ao contrário do que já se sugeriu, a prática regular de exercícios físicos não foi capaz de diminuir o risco de morte no caso de pessoas que passavam mais de três horas sentadas. Por isso, Rezende destaca que é preciso investir em mudanças contextuais, não apenas no ambiente de trabalho, mas também nas cidades, para permitir que a população passe mais tempo se movimentando. “Não depende da força de vontade e da motivação individual de fazer exercício. O tempo que passamos trabalhando sentados é altamente determinante, assim como a forma que as cidades estão planejadas. Precisamos de calçadas bem cuidadas, de ciclovias, de um ambiente social mais favorável à prática de atividades em vários momentos, seja na forma de transporte e deslocamento, seja nas atividades do dia a dia”, defende.

O pesquisador da USP esclarece que a linha de investigação que associa o tempo em que se passa sentado e o risco de morte é recente e que, portanto, é preciso cautela na interpretação dos resultados. “Não sabemos ainda se há uma relação causal, como é a do tabagismo com o câncer de pulmão, por exemplo. Há indícios dessa causalidade, mas isso precisa ser confirmado”, diz.

O cardiologista Fausto Stauf-fer, coordenador de Cardiologia do Hospital Santa Lúcia Norte e diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica que estudos anteriores mostram que ficar sentado por muito tempo afeta negativamente as taxas de glicose e colesterol, além do índice de massa corporal (IMC) e da circunferência da cintura, mesmo em indivíduos que praticam exercícios físicos. A alteração desses parâmetros fisiológicos poderia explicar o aumento da mortalidade, ao menos nos casos de óbitos por doenças cardiovasculares. “A gente ainda não sabe o porquê disso. Em termos de orientação, o que podemos é dizer para as pessoas controlarem melhor os outros fatores de risco e tentarem ficar mais em pé.”

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